
Setor elétrico brasileiro: entraves e caminhos para a modernização
Jerson Kelman, Reginaldo Medeiros e Luiz Maurer apontam gargalos na regulação e a necessidade de modernização para segurança energética
Na estreia da segunda temporada do podcast “Iluministas”, promovido pelo Instituto Pensar Energia, três nomes de referência no setor elétrico brasileiro — Jerson Kelman, Reginaldo Medeiros e Luiz Maurer — se reuniram com Edvaldo Santana, ex-consultor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para um bate-papo franco sobre os impasses e as urgências da modernização do setor elétrico no Brasil, intitulado “O modelo em xeque: como chegamos até aqui?”. A conversa, conduzida por Juliana Melcop, advogada especializada em regulação de energia e sócia do Veirano Advogados, girou em torno do futuro da regulação, dos gargalos da expansão da matriz e da necessidade de reformas estruturais para garantir a segurança energética e a sustentabilidade econômica do sistema.
Kelman, ex-diretor da Aneel e um dos maiores nomes da regulação elétrica no país, foi enfático ao afirmar que o modelo vigente está esgotado. Segundo ele, a complexidade das regras e a multiplicidade de encargos transformaram o sistema em um emaranhado disfuncional, que penaliza consumidores e afasta investimentos. Ele destacou a importância de reavaliar as regras de comercialização, os subsídios cruzados e a previsibilidade regulatória. “Essencialmente o aumento de ofertas de energia ou das linhas de transmissão não decorre de um real aumento da atividade econômica do país, de um real aumento de carga e sim de uma migração de consumidores do ambiente cativo pro livre. Bem, então, e a crise é grave”, reforçou Kelman.

"No ambiente familiar, eu sou conhecido como um sujeito extremamente pessimista. Então, eu, no caso do setor elétrico, acho que nós estamos em uma crise gravíssima"
Jerson Kelman
Ex-diretor da Aneel e especialista em regulação elétrica.Reginaldo Medeiros, ex-presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), defendeu a ampliação do mercado livre de energia e criticou a lentidão das reformas legislativas. Para ele, o ambiente de negócios precisa ser mais transparente e competitivo, com foco na liberdade de escolha do consumidor. Medeiros também apontou a necessidade de uma transição energética responsável, que leve em conta a complementaridade entre fontes renováveis e térmicas, especialmente no contexto de segurança do suprimento. “Hoje o risco está na pior representação do setor, que é o consumidor cativo, que a rigor ele tem uma representação lá pelo conselho de consumidores, que na verdade é uma representação tutelada pelas distribuidoras”, relatou Medeiros.

"Eu não acho que o lobby seja mau em si. Eu queria que a gente organizasse um mercado em que as empresas, ao invés de investir no lobby e gastar a estrutura para 30 associações, investissem o dinheiro no aumento da competitividade de cada empresa"
Reginaldo Medeiros
Ex-presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel).Já Luiz Maurer, ex-consultor de energia do Banco Mundial, reforçou o papel estratégico do setor elétrico na economia nacional e alertou para o descompasso entre planejamento de longo prazo e decisões políticas imediatistas. Ele destacou que as decisões precisam ser tomadas com base técnica e coordenadas entre os diversos órgãos e agentes do setor, evitando medidas isoladas. “E a crise que eu vejo é mais no sentido de uma crise financeira. Estou corroborando aqui, meus colegas já disseram, é um apagão financeiro. Toda essa expansão que a gente fez e mais o que a gente vai ter que fazer para tornar o sistema mais flexível e controlável, isso representa um enorme investimento que tem que ser pago”, explicou Maurer.

"E a crise que eu vejo é mais no sentido de uma crise financeira. Eu estou corroborando aqui, meus colegas já disseram, é um apagão financeiro"
Luiz Maurer
Ex-consultor de energia do Banco MundialO episódio também abordou a governança do setor, com críticas ao excesso de intervenções e à falta de autonomia técnica dos órgãos reguladores. Para os convidados, a modernização do setor elétrico depende da capacidade do país em garantir estabilidade institucional e de se ter um planejamento coerente, com uma visão integrada de infraestrutura, mercado e meio ambiente.
Com tom crítico, mas propositivo, os especialistas encerraram o episódio com um chamado à ação: o Brasil tem potencial energético abundante, mas precisa de reformas urgentes para transformar esse potencial em vantagem competitiva.
Confira o episódio completo:

