
Setor elétrico em transição: desafios e soluções urgentes
Bento Albuquerque, Luiz Carlos Ciocchi, Xisto Vieira e Lucas Ribeiro debatem o papel da governança, das termelétricas e das novas tecnologias
Encerrando a segunda temporada do videocast “Iluministas”, uma iniciativa do Instituto Pensar Energia, o sexto episódio trouxe um intenso e abrangente debate sobre os caminhos para a reforma do setor elétrico brasileiro. Sob o tema Reformar antes do colapso, o bate-papo contou com a participação de Bento Albuquerque (ex-ministro de Minas e Energia), Luiz Carlos Ciocchi (ex-diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS) e Xisto Vieira (presidente da Associação Brasileira Geradoras Termelétricas – Abraget), além do economista Lucas Ribeiro, especialista em regulação energética.
O episódio “Futuro: infraestrutura e novas tecnologias” abordou os desafios crescentes do setor diante da transição energética, com destaque para a viabilidade dos data centers como solução para a baixa demanda e o excesso de oferta no sistema. Os especialistas foram unânimes: os data centers exigem confiabilidade elétrica 24/7, o que coloca as termelétricas e a energia firme como peças fundamentais, ainda que o país tenha abundância de fontes renováveis.

"Nós temos abundância de energia, mas temos um consumo per capita muito baixo de eletricidade"
Bento Albuquerque
Ex-ministro de Minas e EnergiaPara Xisto, não se trata apenas de energia suficiente, mas de estabilidade e controle de frequência, aspectos que as fontes intermitentes sozinhas não oferecem. “É um problema de estabilidade. Então, por exemplo, as cargas de um data center não podem ser submetidas a blackouts. Mesmo que seja um desligamento por 10 horas, voltando depois. Isso derruba completamente tudo, toda a estrutura de dados e o data center tem que ter o que a gente chama de confiabilidade elétrica, que não é mais aquela de falta de energia, de falta realmente de controle para se manter estável, tá… E aí é que entram as termoelétricas”, explicou Xisto.
Nesse contexto, a governança do setor foi um ponto central. Ciocchi enfatizou a necessidade de aprimorar a organização institucional, com clareza sobre responsabilidades e planejamento de longo prazo. “Voltamos sempre nesse ponto que é essa organização. O título do Iluministas agora é “Reforma antes do colapso”, né? Então o colapso, a gente já falou de um colapso energético, colapso elétrico… Quais são os outros colapsos que podem ter? Um regulatório ou contratual? Podemos ter um colapso institucional. As instituições não conseguem achar o seu ponto de equilíbrio. Ou seja, se você não tiver essa governança, se você não tiver plano nessa organização, nós não iremos conseguir evitar nenhum desses tipos de colapso. É fundamental. Não adianta a gente tentar resolver o problema, com engenharia elétrica apenas. Ela é importante, ela faz parte da equação, é um setor técnico, mas é preciso a base de instituições fortes, instituições comandadas, e administradas com real intuito de organizar um setor para que o país possa se beneficiar”, defendeu Ciocchi.

"Não adianta a gente querer sonhar em um mundo com negócios movidos com energia intermitente, porque isso você não consegue fazer"
Luiz Carlos Ciocchi
Ex-diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico - ONSJá Bento destacou que o Brasil precisa transformar programas de governo em programas de Estado, com previsibilidade e segurança jurídica para atrair investimentos. “Nós temos que efetivamente melhorar o nosso planejamento, precisamos de programas de Estado, não de governo. Quando você fala em curto prazo nesse setor são 10 anos. E isso passa pelos governos e o país que precisa tanto melhorar o seu consumo per capita. Eu estou batendo muito nessa tecla aqui porque isso é fundamental, se não vai ter data center, se boa parte da população não tem acesso às coisas básicas que a energia oferece; então, eu acho que nós temos potencial enorme. Agora, eu acho que também amadurecemos, não quero passar uma mensagem pessimista, muito pelo contrário, eu sou otimista. Eu acho que nós temos já um amadurecimento para virar essa página e aí termos um ambiente de negócios com segurança jurídica, segurança regulatória que é tão importante quanto previsibilidade para que a gente possa efetivamente ter os empreendimentos que tanto necessitamos em um país em desenvolvimento como o nosso”, defendeu Bento.
Outro tema de destaque foi a Medida Provisória 1300, recentemente publicada, que, segundo os convidados, apesar de tratar pontos importantes, como a inserção de renováveis, não configura uma reforma estrutural profunda. Xisto apontou a ausência de um modelo robusto para a expansão da oferta de energia, especialmente no mercado regulado, no qual a migração de consumidores para o mercado livre compromete os leilões de energia.

"A energia nuclear é a energia do futuro"
Xisto Vieira
Presidente da Associação Brasileira Geradoras Termelétricas - AbragetO episódio também explorou novas tecnologias, como as baterias e os pequenos reatores nucleares. As baterias foram vistas como ferramentas complementares, mas ainda longe de substituir termelétricas. Já os reatores nucleares modulares foram considerados uma oportunidade estratégica. Sobre o hidrogênio verde, o painel demonstrou cautela. Apesar do interesse internacional, o Brasil ainda não possui infraestrutura nem demanda interna consolidada. Os convidados defenderam incentivos bem calibrados, com atenção ao risco de criar subsídios permanentes sem sustentabilidade econômica.
A discussão foi encerrada com a reafirmação da importância do planejamento energético indicativo, conduzido pela Empresa de Pesquisa Energética, e da integração entre Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e o Congresso Nacional. A visão unânime foi de que o país possui os recursos e o conhecimento técnico necessários — falta agora vontade política e institucional para organizar a transição com eficiência e evitar colapsos — sejam energéticos, regulatórios ou institucionais.
Assista ao episódio na íntegra:

